O Kia EV4 entrega mais espaço interno e maior autonomia do que a maioria dos concorrentes, mas pode tropeçar em um ponto: o preço.
A Kia vive, hoje, o melhor momento da sua história. E, quando o assunto é a linha 100% elétrica, é difícil achar outra marca generalista que esteja fazendo um trabalho melhor.
O integrante mais recente dessa família de elétricos se chama EV4. Ele é fabricado na Europa e, falando sem rodeios, chega com quase tudo jogando a favor para dar certo.
Ele nasce a partir da base do EV3, mas estica o entre-eixos e, com isso, melhora o espaço para quem vai atrás. A carroceria principal é de dois volumes, com cinco portas, mas também existe uma alternativa Fastback, de três volumes e quatro portas, pensada para quem já está cansado de SUV e crossovers.
E o preço? Entre o EV3 de entrada e o EV4 de entrada, a diferença é de apenas 1500 euros. Em teoria, isso faz parecer que a decisão passa quase só pelo tipo de carroceria. Mas será mesmo assim?
Passei alguns dias com este modelo, que acabou de “aterrar” no mercado português, para entender onde ele ganha e onde ele perde em relação ao seu “irmão mais novo”, o EV3.
Imagem pouco consensual
Dentro da família EV da Kia, não é simples encontrar um desenho que agrade todo mundo. As linhas angulares, os apliqués pretos nas caixas de roda e a assinatura luminosa bem marcada não são unanimidade. Em compensação, quase ninguém vai confundir um EV4 com qualquer outro elétrico na rua.
O que vale mais: um design mais “neutro” e discreto ou um visual que divide opiniões, mas tem identidade? Eu fico com a segunda opção. Por isso, gostei do caminho que a Kia escolheu para este carro. A versão Fastback “são outros quinhentos”, como se costuma dizer…
E não é só estilo: com teto baixo, entrada de ar ativa na dianteira e um capô bem “afiado”, o EV4 registra coeficiente aerodinâmico (Cx) de apenas 0,27.
Interior com nota positiva
Como já virou padrão nos modelos da marca sul-coreana, a cabine aposta em um minimalismo acolhedor, com desenho atual e materiais agradáveis ao toque.
No multimídia, a tela de 12,3” não é a mais prazerosa de usar, mas está entre as mais fáceis e intuitivas. E há um bônus importante: várias funções essenciais também podem ser acionadas por botões físicos.
Atrás do volante, o quadro de instrumentos (também de 12,3”) complementa bem a tela central e exibe, de forma direta e legível, as informações ligadas à condução.
Para alternar entre as páginas, há comandos físicos no volante, que tem boa pegada. Ainda assim, como o aro é espesso, ele acaba encobrindo uma parte relevante da pequena tela dedicada ao ar-condicionado, posicionada entre a instrumentação e o sistema de infoentretenimento.
Esse inconveniente aparece em outros modelos da gama EV da Kia e, infelizmente, a marca segue sem corrigir.
Mais espaço atrás
Em comparação com o EV3, a mudança mais clara está no banco traseiro: no EV4, sobra mais espaço para os joelhos. A diferença de 140 mm no entre-eixos é perceptível e coloca o EV4 como uma das referências do segmento nesse quesito.
Mesmo assim, eu gostaria que o banco traseiro pudesse correr para a frente quando não precisamos de todo esse espaço na segunda fileira. Porque, quando o tema é porta-malas, ele deixa um pouco a desejar.
É verdade que oferece 435 litros (ou 1415 litros com os bancos traseiros rebatidos), mas fica atrás do EV3, que entrega 460 litros. É o preço de ter um teto mais baixo e uma coluna traseira mais inclinada.
Para completar, o Kia EV3 ainda conta com um frunk sob o capô dianteiro, somando mais 25 litros. Não é muito, claro, mas ajuda a ampliar ainda mais a vantagem sobre este EV4.
Autonomia longa
Diferentemente do EV6 e do EV9, o EV4 não usa arquitetura de 800 V e fica nos mais tradicionais 400 V. Por isso, suporta recarga de até 128 kW (101 kW na versão com bateria menor) em corrente contínua (DC) e de até 11 kW em corrente alternada (AC).
Não são números de referência - longe disso -, mas também não atrapalham. Já a autonomia está no nível do que há de melhor no segmento. Com baterias de 58,3 kWh e 81,4 kWh, o Kia EV4 declara até 440 km e 594 km, respectivamente.
O carro que eu testei vinha com a bateria maior e, sinceramente, não senti nenhum tipo de ansiedade de autonomia. Afinal, além da capacidade generosa, os consumos são relativamente baixos, o que ajuda a chegar perto dos valores anunciados pela Kia.
Em uso misto, combinando autoestrada e trechos mais urbanos, sempre respeitando os limites legais de velocidade, registrei consumo médio de apenas 13,9 kWh/km - um número extraordinário para uma proposta com este porte.
A eficiência do conjunto elétrico (e, por consequência, a autonomia elevada) é o grande trunfo deste elétrico, que também parece mais assentado e menos seco do que o EV3. Ainda assim, em vias mais mal conservadas e com as rodas de 19” do exemplar testado, o acerto da suspensão poderia ser um pouco mais macio.
Nos demais cenários, porém, o EV4 se mostra bem equilibrado, confortável e, acima de tudo, pronto para responder. Em um mercado cheio de elétricos com várias centenas de cavalos, os 204 cv do EV4 não impressionam. Mas são totalmente suficientes para um uso normal.
Quem não concordar provavelmente precisa mirar outro tipo de proposta, com pedigree esportivo. Porque este Kia EV4 está o mais distante possível desse perfil.
Ele entrega acelerações consistentes (apenas 7,7s no sprint de 0 aos 100 km/h), mas é isso. Os comandos têm toque muito leve e são claramente calibrados para o conforto - assim como o comportamento do chassi. E, neste caso, isso combina com ele.
Quanto custa?
O novo Kia EV4 já pode ser encomendado no nosso país, com preços a partir de 41 500 euros na versão com a bateria menor e de 46 000 euros na configuração com maior autonomia.
De qualquer forma, o preço é um dos principais pontos negativos do modelo, assim como já acontecia no EV3. Ainda assim, vale lembrar que a marca está com uma campanha de lançamento que reduz 3800 euros em toda a gama. Mas não adianta sair correndo, porque na Kia essas campanhas costumam se prolongar no tempo.
Como já disse, a diferença para um Kia EV3 equivalente é mínima. Então a decisão precisa se apoiar, sobretudo, em dois fatores: espaço no banco traseiro e aparência externa.
Seja qual for a escolha, a partilha de componentes entre os dois é praticamente total. O EV3 é um dos melhores elétricos do segmento, e o EV4 vai na mesma direção.
Assim, se o design não for um problema para vocês, talvez estejam olhando para o próximo carro elétrico. Há problemas piores.
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