Pelos assuntos que escolho, eu entendo que às vezes pareça o contrário. Mas, na maioria das vezes, eu não escrevo para quem tem a minha idade - nem para quem é mais velho. A gente não precisa que alguém nos lembre do que já sabe de cor e salteado. E, em alguns casos, literalmente de cabeça raspada. “Carro antigamente era isso, carro antigamente era aquilo”… enfim.
Para quem este texto é (e para quem não é)
Quando eu puxo temas como este, eu estou falando principalmente com os mais novos. Com a nossa molecada. O universo automotivo de vocês não tem nada a ver com o que foi o nosso. Então faço um pedido aos mais velhos: larguem o celular, vão fazer outra coisa e mandem este texto para eles. Vocês não vão aprender nada.
Agora que os mais velhos saíram da sala - no nosso tempo existia um negócio chamado mIRC e, para os ainda mais antigos, outro chamado CTT - deixa eu dizer uma coisa: vocês devem ser a geração mais difícil de impressionar da história. Mimados.
Vocês nasceram na era dos superlativos. A internet é rápida, os computadores são rápidos, os carros são rápidos e até a comida é fast. A única coisa em que vocês não são rápidos é para conseguir comprar ou alugar um lugar pra morar, ou para avançar na carreira.
Não se sintam atacados. Até porque a culpa não é de vocês. A minha geração - que só agora está começando a ocupar posições de poder - e, principalmente, as gerações antes da minha devem um pedido de desculpas. Foram elas que deixaram o país desse jeito.
Ferrari F40 e McLaren F1: quando números eram notícia
Mas vamos voltar aos carros antes que vocês desanimem (sei que isso é mais comum na geração de vocês…). Para chegar onde eu quero, vou começar com um exagero: Ferrari F40 e McLaren F1. Dois ícones que marcaram época e cujos números, isoladamente, hoje talvez nem bastassem para virar manchete.
O Ferrari F40 tinha 478 cv - menos potência do que o Zeekr 7GT que eu dirigi há algumas semanas. Já o McLaren F1 tinha 627 cv, abaixo dos 680 cv do novo Mercedes-AMG CLA 45.
Os mais velhos que insistiram em continuar lendo já estão resmungando: "Ah, mas não é a mesma coisa." Poxa, claro que não é. Um número não mede peso, envolvimento, personalidade ou emoção. Eu não estou dizendo que esses carros são equivalentes. O ponto é outro: de tanto ver esses números, a gente foi ficando insensível à violência que eles representam.
Eu me lembro de assistir ao lançamento do McLaren F1 nos telejornais. Era um evento - até porque não existia esse negócio de voltar o vídeo e ver de novo. Hoje, olhando os dados de audiência da Razão Automóvel, até carros com mais de 1000 cv penam para conquistar a atenção de vocês.
A normalização das potências absurdas
E nem precisa voltar tão longe. Em 2012, ano em que a gente fundou a Razão Automóvel, todo mundo ficou boquiaberto com os 1001 cv do Bugatti Veyron. Ou, numa escala mais “pé no chão”, com o Nissan GT-R, que chegou à Europa com 485 cv. Felizmente, a linha GT da Porsche ainda parece imune a esse processo de normalização de potências absurdas (eu compartilhei um vídeo sobre isso algumas linhas acima).
Somos todos contemporâneos, como dizia Agostinho da Silva - eu só fui descobri-lo agora, aos 40 anos, por puro acaso. Eu estou vivendo o mesmo tempo que vocês, mas as minhas referências são outras. Por isso eu quero que vocês saibam: já houve uma época em que 120 cv era potência de respeito. E até menos.
Quando eu tinha a idade de vocês, o meu sonho tinha nome e sobrenome: Citroën Saxo Cup, um esportivo com motor aspirado, pouco peso e “só” 120 cv.
É verdade que muitos deles não ficavam muito tempo com os tais 120 cv, mas isso é assunto para outro dia…
A moral, no meio dessa história toda, é simples: potência não é tudo. Um Saxo Cup não precisou de quatro dígitos na ficha técnica para conquistar um lugar no Olimpo da nossa memória coletiva.
Talvez a Razão Automóvel tenha, aqui, uma responsabilidade do tamanho que ela tem. Ou seja: pequena, mas nem por isso menos relevante. A responsabilidade de não permitir (ou de não ajudar…) que a geração de vocês seja embrutecida por números - ou pelas “gorduras” dos títulos da imprensa, onde, claro, a gente também se inclui.
Alfa Romeo Giulia Quadrifoglio, Itália e a Mille Miglia
É por isso que, em breve, vocês vão acompanhar a gente numa viagem pela Itália ao volante de um Alfa Romeo Giulia Quadrifoglio, com os seus modestos - à luz de hoje - 520 cv de potência. Uma viagem que terminou em Roma, dentro do que muitos chamam de a corrida mais bonita do mundo: a Mille Miglia. Vai valer a pena.
Se este texto chegou até você e você ainda está lendo este parágrafo, então já valeu cada linha desta homilia. Você provou que a capacidade de atenção dos mais novos não se limita a 10 segundos de um TikTok. E, se você é mais velho, então fica provado que a gente realmente fica teimoso com a idade. Eu disse que este texto não era para vocês e vocês ficaram até aqui… não aprenderam nada, aprenderam? Eu avisei.
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