Um motor a combustão de quatro cilindros, 2,0 litros e com turbocompressor parece, à primeira vista, um casamento improvável com um carro elétrico. Ainda assim, foi exatamente com esse propósito que ele nasceu.
O nome dele é Horse D20 Methanol: um extensor de autonomia desenvolvido pela Horse Powertrain, iniciativa que reúne Renault, Geely e a petrolífera Aramco no mesmo projeto. E a escolha central aqui não é aleatória - passa diretamente pelo combustível adotado.
Em vez de gasolina ou diesel, a proposta usa metanol. Entender esse “porquê” ajuda a encaixar toda a lógica do sistema.
Por que a Horse escolheu o metanol?
A Horse não está tentando redesenhar o conceito de carro elétrico do zero. O objetivo é atacar dois pontos conhecidos: a ansiedade de autonomia e a demora na recarga. Para isso, era necessário um combustível líquido - fácil de transportar, rápido de reabastecer e que conversasse com uma infraestrutura já familiar. É nesse espaço que o metanol entra.
O metanol é o álcool mais simples (CH₃OH) e tem uma vantagem imediata: permanece líquido em temperatura ambiente, o que facilita armazenamento e logística, ficando muito mais próximo da gasolina do que do hidrogênio nesse aspecto. Diferentemente do hidrogênio, não exige tanques complexos nem altas pressões. Diferentemente das baterias, não precisa de horas para “recarregar”. E, ao menos em teoria, pode ser produzido de modo mais sustentável.
Atualmente, a maior parte do metanol ainda vem de gás natural ou carvão, mas ele também pode ser obtido a partir de biomassa ou pela combinação de hidrogênio verde com CO₂ capturado - o chamado e-metanol. Aqui está o ponto-chave: ele pode atuar como um “transportador” de energia renovável em forma líquida.
Para uma empresa que coloca, lado a lado, uma gigante do petróleo como a Aramco e dois grupos automotivos, a estratégia faz sentido. Ela preserva a lógica do reabastecimento rápido, com a possibilidade de reduzir emissões - sempre dependendo da origem do combustível.
Há mais um detalhe essencial: esse motor não traciona as rodas. Como ele opera quase sempre no regime ideal (o mais eficiente), fica mais viável usar combustíveis menos convencionais sem afetar a experiência de dirigir.
Do ponto de vista técnico, o metanol também traz atributos interessantes. Ele tem alto índice de octanas, o que permite soluções potencialmente mais eficientes e uma combustão que pode ser mais limpa do que a dos combustíveis tradicionais.
No caso do D20 Methanol, a Horse declara 47% de eficiência na conversão de energia química em eletricidade - um número elevado para um motor a combustão - e diz que 19,6 litros de metanol bastam para gerar 40 kWh de eletricidade (produz 1 kWh de energia elétrica por cada 2,1 kWh de metanol queimado).
Mas não existe mágica. O metanol carrega menos energia por litro do que a gasolina, o que significa tanques maiores ou reabastecimentos mais frequentes. Além disso, é tóxico (por inalação, ingestão e contato com a pele), pede cuidados no manuseio e pode ser corrosivo para certos materiais, exigindo soluções técnicas específicas.
Somam-se a isso limitações práticas: a rede de abastecimento praticamente não existe. E há um ponto crítico que não dá para ignorar: se o metanol vier de fontes fósseis, o ganho ambiental simplesmente desaparece.
Um motor que não move o automóvel
O Horse D20 Methanol não está conectado às rodas: ele atua como gerador em uma configuração de elétrico com extensor de autonomia (EREV). Na prática, é um veículo em que as rodas são sempre movidas por motores elétricos, mas que recorre a um motor a combustão para recarregar a bateria quando necessário.
No D20, o conjunto combina o quatro-cilindros com um gerador elétrico instalado no virabrequim. Ao todo, o sistema pesa 170 kg e entrega até 105 kW (143 cv).
Esse gerador elétrico adota uma arquitetura de fluxo axial, que tende a ser mais compacta e com maior densidade de potência. De acordo com a Horse, ela é 46% mais curta do que soluções convencionais (fluxo radial) e entrega 63% mais potência por volume, com eficiência elétrica de 96,4%. Na prática, isso significa menos espaço ocupado e melhor densidade de potência.
Não é uma ideia nova, mas está sendo reinventada
O metanol já teve seu período de destaque. Ele foi usado por décadas no automobilismo e chegou a aparecer em carros de rua nos anos 80 e 90. A proposta acabou não avançando por motivos diretos: pouca infraestrutura e menor eficiência energética em comparação com a gasolina.
Agora, a Horse tenta contornar essas limitações de outro jeito. Em vez de queimar metanol para mover o carro diretamente, ela o usa para gerar eletricidade em um sistema que pode trabalhar continuamente no ponto de eficiência máxima.
Por enquanto, ainda não está claro qual será o destino comercial desse motor a metanol. A Horse não informou se ele vai chegar ao mercado, nem em que prazo. O conceito, porém, é objetivo: manter a condução elétrica, reduzir a dependência de pontos de recarga e recorrer a um combustível líquido que pode - potencialmente - ser mais sustentável.
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