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O empurrão chinês e a volta de EBRO, Santana e UMM

Carro SUV verde militar estacionado em showroom moderno com tomada para recarga elétrica ao lado.

A investida chinesa sobre a indústria automotiva europeia está acontecendo por todos os lados. E, quando digo por todos os lados, é literalmente isso: eles compraram marcas e fábricas, chegaram com montadoras próprias e, ainda por cima, estão trazendo de volta nomes que já estavam quase esquecidos. E nem adianta perder tempo me acusando de favorecer marcas chinesas. Já perceberam que deste lado não existe nem favoritismo nem o seu contrário.

UMM, EBRO e Santana: o empurrão chinês na Península Ibérica

Seguindo em frente: quero falar da EBRO e da Santana, duas marcas espanholas bem conhecidas que voltaram à atividade nos últimos meses, apoiadas em plataformas e tecnologia chinesas - o tal empurrão chinês do título. Mesmo com essa origem, a produção (ou a montagem, em alguns casos) está acontecendo aqui do lado, na Espanha.

E é o tipo de notícia que inevitavelmente me faz pensar em Portugal. Porque, se esses ventos espanhóis atravessarem a fronteira, existe uma marca nacional com tudo para protagonizar um retorno parecido: a UMM. Um nome que, vale dizer, continua bem vivo na nossa memória coletiva.

Paralelos históricos entre EBRO, Santana e UMM

As semelhanças entre as espanholas EBRO e Santana e a portuguesa UMM são claras. Nos anos 80 e 90, todas eram voltadas para veículos de trabalho ou modelos de uso fora de estrada, e as três dependiam de tecnologia “emprestada” de outros fabricantes. A EBRO recorreu à Ford, à Massey Ferguson e, mais tarde, à Nissan; a Santana, à Suzuki; e a UMM, aos motores Peugeot.

No fundo, quase nada mudou - com duas diferenças: agora a tecnologia vem da China e, desse trio, a UMM é a única que segue inativa. A EBRO voltou a apostar em SUVs, desta vez com tecnologia da Chery. Já a Santana reapareceu com tecnologia da BAIC, repetindo exatamente a mesma fórmula de antes: veículos off-road e de trabalho.

Santana Cajal e a receita que combina com a UMM

Basta olhar, por exemplo, para o novo Santana Cajal (na imagem em destaque). Na ficha técnica, aparece tudo aquilo que gostaríamos de ver em um UMM: chassi sobre longarinas, tração integral, reduzida, bloqueios de diferencial e motor Diesel.

Por isso, entre os casos espanhóis, é justamente o da Santana que parece encaixar melhor na “nossa” UMM. Seria um retorno sem abrir mão da identidade que todo mundo associa à marca portuguesa: veículos com reais capacidades fora de estrada.

Voltar ao passado ou reposicionar a UMM?

Mas dá para olhar a questão por outro ângulo. Faz sentido a UMM voltar exatamente com a mesma fórmula que acabou contribuindo para o seu fim?

Essa dúvida fica ainda mais forte quando observamos a trajetória de modelos como o Defender ou o Mercedes-Benz Classe G. São dois carros que preservaram o estilo clássico, mas trocaram a companhia dos agricultores por passeios na Avenida da Liberdade ou, na melhor das hipóteses, por escapadas próximas dos arrozais da Herdade da Comporta.

Então, se esse retorno algum dia acontecer, qual deveria ser o posicionamento da marca: voltar às origens ou se ajustar aos tempos atuais? Não é uma decisão simples - e o mercado português é bem menor que o espanhol. Justamente por isso, essas escolhas exigem precisão.

O contexto atual e o Grupo BASE

De todo modo, me parece que hoje existem mais ingredientes do que nunca para uma volta da UMM. Não é uma ideia absurda - nem do ponto de vista tecnológico, nem do ponto de vista do contexto.

O Grupo BASE, que atualmente detém a UMM, também tem no portfólio a C. Santos VP. Em outras palavras: a marca portuguesa está nas mãos de um grupo que já tem a experiência comercial, técnica e logística necessária para “cozinhar” esse retorno. E por falar em cozinhar, o Grupo BASE também tem uma cadeia de restaurantes…

Eu não sei - e é sério, não sei mesmo! - se alguma dessas possibilidades está, neste momento, na mesa do conselho de administração do grupo, mas parece o timing certo. E depois de termos falado do último motor português há poucas semanas, confesso que a indústria nacional tem ocupado minha cabeça mais do que o normal. Até para dar uma respirada diante das notícias sobre a crise da Volkswagen.

Uma coisa é certa: seja qual for o destino da UMM (se é que ela ainda vai ter algum…), sempre teremos os UMM clássicos. Eles continuam aparecendo por aí, só que cada vez mais caros. Um Alter Turbo ficava mesmo bem ao lado do meu «novo» W201, não acham?

E, para quem considera delirante a ideia de a UMM voltar, há alguns meses eu jantei com um empresário que está tentando reativar a Yugo - lembra-se da marca nascida na ex-Jugoslávia? Um dia desses a gente fala sobre isso, porque é uma história que merece ser contada. Como diria Fernando Pessoa, «Tudo vale a pena quando a marca não é pequena». No original era alma, não era marca, mas no caso da UMM dá para aplicar as duas.

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