Neve e gelo - como qualquer pessoa que já levou o carro para um parque de estacionamento em pleno caos de um “bombardeio” de neve sabe - transformam qualquer carro num espetáculo e qualquer um num deus do volante. Agora imagine como seria se o carro já fosse bom de nascença e o cenário fosse um pouco mais exótico do que um Morrisons em Derby. Val Thorens é a estação de esqui mais alta da Europa e é lá que fica o Ice Driving Alain Prost.
Val Thorens e o Ice Driving Alain Prost
“Alain Prost? Corrida no gelo? Nem combina”, é o que dá vontade de pensar. Só que o homem ganhou o campeonato do Troféu Andros três vezes e somou 38 vitórias. E sim: um desses títulos veio ao volante de um Dacia Lodgy. Vai ver ele treinou num Morrisons qualquer. Ou talvez não. O Dacia do Alain certamente era bem mais… preparado para o serviço.
Só que a nossa arma aqui é melhor ainda: o nosso atual Performance Car of the Year, o Alpine A110, calçado com pneus de rali Michelin com pregos, como manda o figurino. E repare no plural: “nós”, não “eu”, porque comigo está o editor-chefe, Charlie Turner. Tem tudo para descambar para a competição.
[carrossel temático]
Primeiro briefing, depois “Dirija. Derrape.”
OM: Curtiu o briefing de piloto?
CT: A reunião mais rápida da minha vida. O chefe do circuito levantou, disse duas palavras - “Dirija. Derrape.” - e acabou. Perfeito. Você vai primeiro. Eu vou ficar aqui vendo você “Dirigir. Derrapar.” E provavelmente bater. Tomara que o tempo dê uma aliviada antes da minha vez. Não acredito que deixam a gente guiar aqui à noite, com essa nevasca.
OM: Achei que aqui fosse tudo iluminado. Está escuro demais lá fora. Vai parecer uma especial do Monte Carlo, só que com paredes de gelo ainda mais ameaçadoras. Pelo menos este Alpine protege mais do que um A110 original. A Alpine devia voltar para os ralis.
CT: Devia mesmo. Quem sabe os seus próximos 20 minutos sirvam de incentivo. (E olha: por instinto eu deveria querer ir primeiro, mas nessas horas eu sempre achei que a prudência é a melhor parte da coragem. Já tive a sorte de passar um bom tempo deslizando num lago congelado com 911 antigos no absolutamente brilhante curso Below Zero. Só que aqui é outra história. Errou no lago, você vai varrido por uma imensidão de neve fofinha e, quando finalmente parar, aparece um sujeito simpático chamado Sven para te desatolar. Sai da pista aqui e você acerta um barranco de gelo - e depois encara uma conversa difícil com a seguradora.
O Alpine é bem talhado para este ambiente, então eu espero ver muito “scandi flick” em ação, Marriage - desde que você não fique sem talento tentando convencer esses pneus pregados a atravessar a neve que só engrossa para encontrar o gelo por baixo. Enfim, vai lá. E, irritantemente, eu não posso te dar “incentivo” no banco do passageiro: no lugar disso temos o Vincent. Instrutor de Porsche em Le Mans, não é pouca coisa. Bonne chance, mon brave.)
[imagem grande à esquerda]
OM: Claro que é. Eu sempre disse: “scandi flick” é a forma certa de contornar as Curvas Porsche.
Passam 20 minutos, com o grupo mostrando níveis variados de coragem. Marriage foi irritantemente competente, mas prefiro não comentar - e ficar só com o útil...
CT: Você não bateu.
OM: Não foi por falta de vontade. Lá fora está absurdamente escorregadio. E escuro, e as curvas são apertadas, e as paredes ficam perto demais. Dá um frio na barriga. É divertido demais, mas exige concentração a ponto de dar dor de cabeça, além de muita “braçada”. No A110, o modo Pista com o controle de estabilidade mais solto funciona bem: ele encontra tração muito bem até certo ângulo de sobre-esterço; depois corta potência e te puxa de volta com força. Resultado: você perde todo o embalo suado.
CT: Peraí… você estava com tração ligada?
OM: Em parte do tempo. Eu só estava obedecendo ao que o Vincent mandava. A gente tem de acostumar ele aos poucos.
CT: Eu falei com ele quando você voltou. Ele estava elogioso demais com a sua “habilidade” ao volante. Você contou que é um piloto de rali premiado?
OM: Acho que deixei isso em segredo. Ah, olha - agora eles acharam o interruptor dos refletores. Querem que você enxergue o acidente que está prestes a ter. Boa sorte.
Mais 20 minutos se passam…
OM: Você bateu. Deve ter batido - você ficou uma eternidade lá naquela curva do fundão. Aposto que o Vincent ficou bravo.
CT: Eu, não. Bom… não na primeira volta. Nessa eu tive de descer para empurrar/cavar e tirar outro Alpine de lá. Na segunda, eu fui “otimista demais” na direita em descida, com cambagem contra, o que com muita boa vontade dá para chamar de “animado” e, com mais precisão, de “Un accident” - só evitado porque o piloto do outro Alpine teve a presença de espírito de sair da frente do meu A110, que chegou como uma bola de boliche, vindo “do lado do palco”, completamente fora de controle. Acho que eu quebrei o nosso instrutor. O resto dos 20 minutos foi marcado por encolhidas de ombro bem francesas e pelo meu momento favorito, quando ele murmurou ao sair do carro… “Eu vou agora ligar para a minha mãe”.
Enfim, você tem razão: está MUITO escorregadio. Para ser honesto, com essa quantidade de neve e pregos curtos, tudo vira margem mínima… O Alpine é divertido demais e fica melhor com tudo desligado (uma decisão de que o Vincent se arrependeu), mas a combinação de risco alto (paredes grandes, duras e nada indulgentes) com aderência zero deixa a coisa no limite. Ainda assim, o Vincent gosta de você - então vamos ver se conseguimos convencer o homem a voltar para o carro. Depois que ele terminar de virar aquele Calvados.
[galerias incorporadas]
Mais trocas de turno acontecem…
CT: E aí, como foi?
OM: O Vincent aumentou o nível das críticas. Disse que meus comandos de acelerador são “quadrados” demais. E que eu preciso olhar mais adiante na pista, e que eu “tento colocar 1 km/h a mais a cada vez”. Mas não é justamente essa a ideia - ir mais e mais rápido?
CT: Não. A ideia é ficar mais e mais de lado.
OM: Melhor ainda. De qualquer forma, ele está tentando fazer a gente acertar a técnica e ser preciso. E, para falar a verdade, isso não é tão divertido quanto só ficar fazendo graça. O pior é que, depois que ele comentou do meu acelerador “quadrado” e da visão, eu percebi que ele estava certíssimo. Eu estava “dando toques” no pedal, em vez de modular suave, entrando e saindo de forma progressiva. E eu gastava atenção demais com o quão perto eu estava da parede, em vez de olhar para onde eu queria ir. Ele chegou a me dizer: “Eu sinto que você gosta de… hum… flertar com as paredes de gelo”.
CT: Eu estava vendo. Ele tem razão. Você adora uma parede de gelo - e o seu flerte com parede de gelo é forte. Ainda assim, ser acusado de flertar com blocos de gelo inanimados é melhor do que ser chamado de “aggreessife”, que foi o ponto alto da minha última ida ao gelo com um instrutor que eu aparentemente levei a beber… Acho que eu estava mais para “posiitife”, o que é necessário, já que agora o gelo está enterrado sob bons 5 cm de neve nova. Então qualquer progresso exige compromisso.
Falando em compromisso…
OM: Já estou um passo à frente. Bar?
CT: Bar.
No dia seguinte.
O segundo dia: Loeb, Lapierre e a busca pela precisão
OM: Acabei de falar com o Olivier Pignon, que toca este centro. Ano passado, um cara vem esquiando e fica olhando os carros darem voltas. Nada fora do comum - a pista passa bem do lado. Só que aí o sujeito tira o capacete e é ninguém menos que o Séb Loeb, de férias. O Olivier o conhece um pouco de antigamente, oferece uma volta e, daí em diante, o Loeb apareceu aqui toda tarde.
CT: Tudo o que eu ouço sobre o Séb só reforça a minha impressão de que ele é o sujeito mais frio, mais talentoso e mais legal do automobilismo de todos os tempos. Mas, infelizmente, não sei se eu compartilho o entusiasmo dele: o Vincent voltou “depois de falar com a minha mãe e com o seguro” e parece decidido a fazer a gente levar a direção no gelo a sério… Ué, não dá para só fazer derrapões gigantes?
OM: Eu sei, eu sei. Mas veja o lado bom: o Alpine é um mel aqui fora - leve e ajustável. Eu achei que ele precisaria de um diferencial de deslizamento limitado de verdade para ficar previsível quando está de lado, mas, do jeito que é, já fica ótimo. Até agora eu rodei menos do que rodei em Clermont-Ferrand. Aliás, aqui eu ainda não rodei nenhuma vez. Lá eu rodei duas.
CT: Ou seja: faltou talento.
OM: Travamento, Charlie. Faltou curso de volante.
CT: Sim, estou muito orgulhoso de você, parabéns. O Alpine ajuda - ele é um carrinho maravilhosamente equilibrado - mas eu acho que ele pediria pregos mais longos. Especialmente agora que limparam o gelo durante a noite: com pregos mais compridos, você desliza, mas dá para trabalhar o carro com mais força e até usar os freios… em vez de fazer a imitação de cachorro em patins.
OM: Ah, o Vincent está vindo. Me deseja sorte.
CT: Quebre a perna. Sério - cuidado com isso: hoje o gelo está superpolido. Não vai ser a batida que vai te machucar; vai ser sair do carro para avaliar o estrago.
[imagem grande à direita]
20 minutos depois
OM: Certo, dominei o Vincent. Uma “bung” maior. Vindo de mais longe. Essa é a resposta. Aliás, não - ele disse: “Eu não digo nada porque você está indo bem”.
CT: Queridinho do professor.
OM: Não. Tá, vai: sim. E eu até curti essa parte mais técnica. A gente desmontou a curva e ficou um tempo só na entrada, porque ele acha que eu preciso dar um “tapa” mais firme no acelerador para iniciar um sobre-esterço maior mais cedo - principalmente naquele grampo longo, em descida, com cambagem contra, que é uma placa de gelo. Complica um pouco porque o Alpine tem um certo turbo lag, então você nunca tem certeza de quanto tempo segurar a potência. Depois foi tentar sustentar a derrapagem até a próxima curva, mas ajustando a trajetória com volante e acelerador, para chegar onde precisa, na velocidade certa, no ângulo certo e assim por diante - e então mexer no equilíbrio de peso para dar alguma aderência na dianteira, para transferir a derrapagem para o outro lado. Quando dá certo, é satisfatório demais.
CT: Fico feliz que você acertou a entrada - pode mencionar isso para as paredes de gelo depois, quando estiver flertando com elas. Mais importante: você já foi com o Nicholas Lapierre?
OM: Não. Vale a pena?
CT: Totalmente. Ele ganhou LMP2 em Le Mans três vezes, mas nunca tinha guiado no gelo até anteontem - e é bem mais divertido do que o Vincent. Ele parece da escola do “na dúvida, de lado e sorrindo é o caminho”. Engraçado de verdade.
OM: Então vou nessa. E você vai dar uma volta com o Marco, aquele instrutor ali. Ele tem cara de que vai tolerar braços voando e risada.
20 minutos depois…
OM: Você estava certo: é divertido demais sentar ao lado do Nicholas. Teve hora de muita rotação frenética de braço e, provavelmente, acelerador em excesso. Nicholas gosta de giro alto. Mas ele também foi impressionante naquela curva que todo mundo odeia. Ele acertou a frenagem no ponto, toda vez, sem disparar o ABS, e sempre na mesma linha - porque ele sabe exatamente onde está a aderência. Eu não consigo ser tão preciso. Basta variar alguns centímetros para um lado ou para o outro e a aderência muda completamente por causa da neve soprada, dos sulcos no gelo, da sombra e por aí vai. Eu achava que gelo era constante, mas não é.
CT: Acertar a frenagem é do que a corrida moderna em autódromo vive. O resto nasce dali - aderência aerodinâmica, equilíbrio de chassi e outras coisas de piloto. Mas, sendo sincero, eu não quero ser um deus das corridas no gelo; eu só quero ficar o máximo de tempo possível de lado, com um sorriso idiota no rosto. Para mim, direção no gelo é isso…
OM: E o Marco?
CT: O Marco foi engraçado e, do jeito dele, elogioso. Disse que eu tenho um “sentimento muito natural num carro”, então toma essa, senhor flertador de parede de gelo. Acho que eu e ele funcionamos igual. Eu fui direto desde o início e falei que só queria derrapar, e ele respondeu: “eu também, não é esse o objetivo?” Perfeito. Vinte minutos depois - e com pouco mais de 100 metros realmente em linha reta - nosso tempo no gelo acabou, e acabou com um sorrisão.
OM: Pelo jeito, a Alpine vai deixar um carro aqui pelo resto da temporada. A gente precisa de mais uma desculpa para voltar. Para, hm, “aperfeiçoar a técnica”…
CT: Você viu o que tem no galpão deles aqui? Quatro palavras: karts de corrida no gelo. Com pneus com pregos. Isso só pode acabar bem…
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